Os conflitos na porta giratória

Um dos focos de maior atrito entre vigilantes, clientes e gerência é a porta giratória. Considerada como um “mal necessário” pelos próprios vigilantes, esse equipamento tornou-se um importante fator de “estresse”. A repetição constante das instruções para a retirada de metais das bolsas e bolsos dos clientes, adicionada às recorrentes reações agressivas geradas pelos bloqueios da porta levam a situações de grande constrangimento e desgaste. Isso porque os vigilantes são quase sempre responsabilizados pelo travamento da porta, sendo agredidos, humilhados ou constrangidos pelos clientes, verbal e até fisicamente, havendo casos de clientes que se exaltam e chegam a quebrar a porta giratória ou a caixa coletora, sendo preciso acionar a Polícia Militar.

Salvo em casos extremos, os vigilantes são instruídos a não revidarem às agressões dos clientes. Por esse motivo, em uma das agências observadas, constatou-se a necessidade de se fazer um rodízio entre eles, de modo que, depois de lidar com clientes estressados e agressivos, o vigilante passasse para um posto menos movimentado, para que pudesse se acalmar e, até mesmo, tivesse oportunidade de chorar, pois muitos têm medo de reagir ou de denunciar os abusos aos superiores, já que isso pode acarretar seu desligamento da agência.

Nada disso tem impedido, no entanto, que os vigilantes agredidos reajam de modo extremo, sendo crescente o registro de agressões físicas e até assassinatos, cometidos contra clientes nas situações de conflito, quase sempre, envolvendo a porta giratória.

Ainda com relação à porta giratória, são comuns os casos em que os chamados “clientes especiais”, pessoas que movimentam grandes montantes na agência, ou que são parentes ou amigos de funcionários, exigem um tratamento especial, criando-se uma situação de impasse, já que o vigilante deve tratar a todos igualmente e de acordo com as normas, o que o leva a ser humilhado ou ameaçado de ser denunciado à gerência.

Além desses clientes, também alguns funcionários públicos, que se consideram autoridades, reivindicam regalias e resistem à apresentação dos documentos de identificação ou a deixarem seus pertences na caixa coletora e passar pela porta giratória, como vimos acima, no caso da agência do Campus da UFMG. No caso das autoridades militares, o problema fica mais delicado, uma vez que a necessidade de fiscalização se tornou ainda mais necessária, depois que agências bancárias foram assaltadas por bandidos com uniformes da Polícia Militar.

Em todos esses casos, somente o gerente da agência possui autonomia para liberar o acesso dos clientes (em caso de travamentos constantes da porta com os “clientes especiais” ou com as figuras de “autoridade”). Tudo isso é considerado como uma fonte de grande tensão para os vigilantes, pois o gerente geralmente libera a porta, sem nenhum critério, sem avaliar a fisionomia do cliente ou o ambiente do banco, colocando em risco o seu trabalho, já que os obrigam a prestar maior atenção àquele cliente. Além disso, em caso de assalto, ainda que tenha sido o gerente a dar a autorização para a entrada da pessoa, é comum que a responsabilidade recaia sobre o vigilante.

Outro tipo de constrangimento se encontra na necessidade de olhar as bolsas e pertences dos clientes, quando a porta permanece travada, mesmo, após a retirada dos objetos metálicos. Em alguns bancos, os próprios vigilantes podem inspecionar as bolsas, o que faz com que se sintam constrangidos por invadir a privacidade dos clientes; em outros, somente o gerente tem autorização para realizar essa inspeção, muitas vezes, feita à distância, ou seja, da própria mesa onde ele trabalha, liberando o cliente sem saber ao certo o que ele está portando, ao entrar no banco. Nesses casos, nota-se que os vigilantes passam a depender da boa vontade da gerência, o que nem sempre acontece, como fica evidente pela atitude, comum entre eles, de sequer se levantarem para inspecionar as bolsas, liberando os clientes sem, ao menos, olhá-los com atenção.

 

O cotidiano dos vigilantes: trabalho, saúde e adoecimento / Carlos Eduardo Carrusca Vieira, Francisco de Paula Antunes Lima, Maria Elizabeth Antunes Lima. Disponível em: <http://renastonline.ensp.fiocruz.br/sites/default/files/arquivos/recursos/613_O_COTIDIANO_DOS_VIGILANTES.pdf&gt;

 

 


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